segunda-feira, 6 de junho de 2016

Velho é o seu preconceito!

Lidar com a longevidade como perspectiva demográfica é um fato. Exige um investimento em qualidade de vida na idade adulta como exercícios vividos de forma plena e saudável, que podem se prolongar até o final da vida. Mas acolher o envelhecimento como um dom de Deus é motivo de alegria e gratidão. Nem todos aceitam essa dádiva da vida longa, gozam e contemplam sabiamente tudo o que a vida lhes proporcionou. O processo de envelhecimento é acompanhado por mudanças físicas que interferem na vida da pessoa como um todo. E diante de um olhar preconceituoso, acreditam que este estado é sinônimo de cansaço, dependência e abandono. Mas sempre existirão aqueles que já viveram muitos anos e podem ser considerados verdadeiros exemplos ao transmitir os seus ensinamentos pela experiência de vida.
Por mais cansativo e intolerante que seja, oferecer-lhe a oportunidade de expressar afeto, lealdade e estima, exclui este pré-julgamento: o idoso é visto de maneira estática, basta envelhecer para ser considerado inativo, sem desejos ou interesses. Desvaloriza-lo desta forma, favorece postura preconceituosas e reações de repulsa diante da verificação da vida ativa, destoante de expectativas com uso de nomenclaturas pejorativas que remetem à atitude inapropriada e atribuição de imoralidade ou inadequação diante de qualquer manifestação que o idoso venha expressar.
Este processo de transformação, no curso da vida, do qual ninguém é isento, tem permitido o surgimento de novas formas de relacionar com estes anciãos, aceitando com carinho suas mudanças nos valores e mentalidades. Pois, muitos dos idosos de hoje, tiveram experiências mais rígidas no passado, por reflexos de tradições bem como a vivencia de experiências mais livres para os audaciosos. Se o idoso é impulsionado pelos seus a lida bem com o envelhecimento, com as mudanças corporais e ambientais, pode explorar novas fontes de satisfação, sanar sentimentos de culpa ou vergonha relacionados à convivência e intimidade. Para muitos idosos o conviver com outras pessoas é mais importante do que qualquer outra coisa.
Sendo assim, não há palavras mais edificantes que uma prece em forma de oração para estes que gozam de tantas experiências de vida, e ao invés de conduzi-los para casas de repousos, sejam acompanhados numa caminhada pelo jardim, ou num chá da tarde ou ainda num momento de família para reviver juntos histórias que eles jamais esqueceram e que felicitam incansavelmente ao contar para filhos e netos, agregados e amigos. Eis a oração:

Ó Deus que deste a estes idosos a graça de uma vida longa, para que fizessem a experiência de quanto és bom, nós te agradecemos por tê-las cumulado de bênçãos durante todos estes anos e te pedimos, para que elas saibam acolher a vida e os anos com alegria, gozem de boa saúde do corpo, e se esforcem para dar a todos um agradável exemplo de sabedoria. Por Cristo, nosso Senhor. Amém. (Ritual popular de bênçãos, Diocese de Chapecó-SC. 4º ed, 2008. p 10) 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Amor que Envolve

Cercado de todos os lados pelas ocupações cotidianas, chega um momento em que nenhum lugar corresponde os desejos e anseios esperados. O clima torna-se pesado, há uma tensão e desagrado para com as pessoas do convívio diário. As roupas não estão boas, a comida está sempre ruim, a televisão não tem programas agradáveis. Inúmeros amigos nas redes sociais, mas ninguém para conversar. Tudo está sufocante, pequeno, apertado. O tic-tac do relógio é irritante, o silêncio grita, a escuridão queima e o frio derrete. É uma verdadeira bomba-relógio pronta para explodir.
O que fazer antes que esta explosão devaste todo um ser que estava em ascensão profissional, familiar, pessoal e possivelmente espiritual? Sabendo que, se este último estivesse ativo, grande parte deste desconforto seria sanado. Existe um lugar para se reabastecer? Uma fonte de força e ao mesmo tempo acolhedor? Sim, existe um único e exclusivo lugar, que, depois dos braços de Deus, acolhe e evolve, aquece e acalenta como se não houvesse mais nenhum lugar no mundo como aquele. Este paraíso, exclusivo e comunitário ao mesmo tempo, é o regaço acolhedor da mãe, o abraço materno que, mesmo depois de grande, tem o mesmo efeito sedativo da pequena e indefesa criança que chorava incansavelmente até ser acolhida e aconchegada em seus braços.
No mês de maio, o segundo domingo é dedicado às mães. Mas este mesmo mês, para a Igreja Católica, é todo dedicado a Maria: “Mãe de Deus e nossa mãe”. Modelo a ser seguido, Maria também é símbolo de unidade e exemplo de desolação, pois diante do seu Filho Jesus, crucificado e abandonado na Cruz, quis abandonar-se também neste amor. Dada a João como mãe, torna-se mãe de uma multidão. E como vinculo de unidade entre todos, une os filhos, torna-os irmãos, como fazem a seu modo as mães da terra.

Não tenha medo de voltar, tornar-se pequeno e pedir uma coisa que jamais lhe será negado: um abraço de mãe. Quem tem em abundância, talvez não dê o valor que ele mereça, e quem perdeu sabe o quanto lhe faz falta. É nesta ausência que entra a unidade, e toda mulher que ama verdadeiramente, que traz essa maternidade no mais íntimo do ser, consegue abraçar e envolver, acolher em seu seio o menor dos pequeninos, e deixar esse extinto falar por si só. Amor de mãe não faz distinção, não tem idade, nem dia e hora marcada. Todo dia é dia de amar. Toda hora é hora de amar. Permita-se voltar a essa fonte e dela beber sem sessar, deixe essa magia acontecer. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Alma, acessível apenas pelos olhos?

Há um dito popular que traz a seguinte afirmação: “os olhos são a porta da alma”. Porém toda e qualquer porta tem uma chave, um trinco, uma tramela ou uma travessa que só abre e fecha por dentro, e por fora somente o seu dono ou quem ele der permissão. Assim, de forma um tanto quanto delicada, Rachel Carvalho complementa este dito sem perder a sua essência, mas com uma sutileza que envolve e penetra. Ela diz que: “é pelo olhar que pedimos licença para entrar na alma do outro”. Este outro tem a liberdade de permitir ou não o seu acesso mantendo seus olhos fitos e abertos ou desviando e fechando-os.
Com os olhos abertos é possível perceber e mostrar-se numa ação mútua. Te permite atenção e vigilância diante de tudo que acontece ao redor, dentro do seu campo de visão. Mas se essa afirmação do dito proceder, manter os olhos abertos é o mesmo que expor a alma, expor a sede dos afetos, sentimentos e paixões. É como se existisse uma vitrine em que toda sua essência estivesse ali exposta com preços, ofertas e promoções, e bem ao lado uma porta aberta sem nenhuma segurança ou sinalização de quem entra e sai.
Olho e alma só se completam quando se tem um equilíbrio. Porque nem sempre o manter-se fechado é sinônimo de aspereza ou introspecção intensa, ou ainda um fechamento absoluto. Basta pensar nos que nasceram ou perderam a visão ao longo da vida. Estes apresentam ou permitem acesso a alma por qualquer outro sentindo aguçado pela ausência da visão. Com os olhos fechados se tem um acesso privilegiado de si mesmo. É um verdadeiro voltar-se para dentro e obter o controle de um mundo exclusivamente seu. É semelhante a uma sala escura de cinema com uma grande tela transmitindo sua história, e essa sessão é exclusivamente sua. Você ocupa a melhor poltrona na solidão daquela sala.

Durante a sessão é o momento de recordar, reviver, sorrir e chorar, é momento de aprender e ensinar, de colher e plantar, é você o protagonista da sua própria história. A alma se faz dentro de todo esse emaranhado de atos e ações, pensamentos e palavras. Reconhecer e aceitar aquilo que é seu, torna-se o ponto crucial de uma alma plena, transparente e verdadeira. Olhos abertos ou fechados já não determina mais a entrada para sua alma, para o seu mundo, porque esta porta é você por inteiro e tudo que fizer não irá revelar-te diferente de sua alma, mas irá revela uma alma semelhante ao que fizer.