Há um
dito popular que traz a seguinte afirmação: “os olhos são a porta da alma”.
Porém toda e qualquer porta tem uma chave, um trinco, uma tramela ou uma
travessa que só abre e fecha por dentro, e por fora somente o seu dono ou quem
ele der permissão. Assim, de forma um tanto quanto delicada, Rachel Carvalho
complementa este dito sem perder a sua essência, mas com uma sutileza que
envolve e penetra. Ela diz que: “é pelo olhar que pedimos licença para entrar
na alma do outro”. Este outro tem a liberdade de permitir ou não o seu acesso
mantendo seus olhos fitos e abertos ou desviando e fechando-os.
Com os
olhos abertos é possível perceber e mostrar-se numa ação mútua. Te permite
atenção e vigilância diante de tudo que acontece ao redor, dentro do seu campo
de visão. Mas se essa afirmação do dito proceder, manter os olhos abertos é o
mesmo que expor a alma, expor a sede dos afetos, sentimentos e paixões. É como
se existisse uma vitrine em que toda sua essência estivesse ali exposta com
preços, ofertas e promoções, e bem ao lado uma porta aberta sem nenhuma
segurança ou sinalização de quem entra e sai.
Olho e
alma só se completam quando se tem um equilíbrio. Porque nem sempre o manter-se
fechado é sinônimo de aspereza ou introspecção intensa, ou ainda um fechamento
absoluto. Basta pensar nos que nasceram ou perderam a visão ao longo da vida.
Estes apresentam ou permitem acesso a alma por qualquer outro sentindo aguçado
pela ausência da visão. Com os olhos fechados se tem um acesso privilegiado de
si mesmo. É um verdadeiro voltar-se para dentro e obter o controle de um mundo
exclusivamente seu. É semelhante a uma sala escura de cinema com uma grande
tela transmitindo sua história, e essa sessão é exclusivamente sua. Você ocupa
a melhor poltrona na solidão daquela sala.
Durante
a sessão é o momento de recordar, reviver, sorrir e chorar, é momento de
aprender e ensinar, de colher e plantar, é você o protagonista da sua própria
história. A alma se faz dentro de todo esse emaranhado de atos e ações,
pensamentos e palavras. Reconhecer e aceitar aquilo que é seu, torna-se o ponto
crucial de uma alma plena, transparente e verdadeira. Olhos abertos ou fechados
já não determina mais a entrada para sua alma, para o seu mundo, porque esta
porta é você por inteiro e tudo que fizer não irá revelar-te diferente de sua
alma, mas irá revela uma alma semelhante ao que fizer.